Este ano foi marcado por uma jornada intensa de criação. Entre ideias que serviram como provas de conceito (PoCs), projetos em desenvolvimento ativo e algumas ferramentas que chegaram a ser usadas por outras pessoas, o saldo foi principalmente de aprendizado técnico.
Tudo começou com o lançamento do TikTok Live Download, um projeto iniciado no final do ano passado e publicado logo no início deste ano. A partir daí, mergulhei em diversas frentes ao longo dos meses. A maioria dos projetos listados abaixo são PoCs não publicados, criados como experimentos técnicos, validação de ideias ou exploração de arquitetura e protocolos.
Projetos desenvolvidos ao longo do ano
- Pixelfed Brasil
- Remote Control
- Rede Social Privada
- Auto TV
- Light / Light MQTT
- Hotspot Auth
- Secret NFT
- WhatsApp Clone (Matrix)
- Worktime
- Track Links
- Donate
- Sgame
- App do Felipe Mateus V3
- Gmerge
Pixelfed Brasil
Uma parte significativa do meu tempo foi dedicada ao Pixelfed Brasil, onde realizei manutenções, criei módulos e fiz traduções para o português. Esse projeto se diferencia dos demais porque não foi algo que criei do zero, mas é projeto open source fiz algumas alterações.
Com o tempo, optei por interromper as atualizações. A relação com os mantenedores originais do projeto não é das melhores e existe sempre o risco de mudanças futuras bloquearem ou inviabilizarem minha instância. Essa experiência me lembrou muito o ecossistema WordPress: decisões centralizadas, barreiras culturais e linguísticas que dificultam bastante a colaboração e a comunicação dentro dessas comunidades.
Fedimap (PoC)
O Fedimap foi um experimento inspirado em um projeto que vi no Bluesky: um mapa visual de toda a rede do fediverso, classificando conexões entre instâncias. A PoC chegou a funcionar e consegui gerar um mapa funcional.
Desisti do projeto porque a quantidade de dados cresce rapidamente, exigindo cada vez mais recursos para atender uma bolha relativamente pequena. Além disso, percebi que muitos administradores de instâncias não gostam de serviços que categorizam ou analisam dados da rede dessa forma.
Fedipay
O Fedipay surgiu como uma tentativa de expandir o uso do protocolo ActivityPub para permitir pagamentos dentro do fediverso. A ideia era intermediar transações financeiras entre instâncias.
Durante a pesquisa, esbarrei em barreiras técnicas e, principalmente, regulatórias que tornam esse tipo de solução inviável para um desenvolvedor independente. Um possível caso de uso seria em aplicativos de delivery federados: uma instância de pagamento regulando o fluxo financeiro entre instâncias de restaurantes, entregadores e clientes. Além de processar pagamentos, o Fedipay também definiria um protocolo de comunicação entre essas instâncias.
Por ser extremamente disruptivo e envolver dinheiro, acabei abandonando o projeto.
Opencar (PoC)
O Opencar foi uma PoC iniciada de forma bem embrionária, algo em torno de 2% a 3% do projeto. Ele foi pensado em três partes: aplicativo do passageiro, aplicativo do motorista e backend. A ideia inicial era ser totalmente open source ou, ao menos, manter o backend aberto.
O objetivo era aplicar o ActivityPub fora do contexto de redes sociais, criando uma plataforma de mobilidade cooperativa. Cada backend funcionaria como um agente autônomo, controlando seus passageiros, motoristas e parcerias com outros agentes.
Funciona assim: o passageiro solicita uma corrida no seu agente autônomo, que verifica se há atendimento na região. Caso não haja, a solicitação é repassada para agentes parceiros. Quando um motorista aceita, a confirmação percorre o caminho inverso até o passageiro. A partir daí, a comunicação direta entre passageiro e motorista é feita via WebRTC, permitindo localização em tempo real sem a latência do ActivityPub.
Nesse modelo, os agentes autônomos são os actors do sistema. O motorista é representado como um actor que informa status e localização aproximada. O passageiro não é um actor. A ideia era aplicar isso em cooperativas de transporte. O projeto não avançou por falta de tempo e mão de obra.
FediGroups
O FediGroups foi uma tentativa de criar suporte a grupos no fediverso. A proposta era definir um protocolo ActivityPub para transmitir grupos e posts relacionados, tornando grupos do Pixelfed compatíveis com o restante do fediverso.
Remote Control
O Remote Control é um projeto antigo, uma evolução da ideia do controle Sonoff. O objetivo era controlar TVs LG simulando o aplicativo oficial de controle remoto, operando diretamente na rede local.
Apesar de alguma evolução, ainda não consegui concluir o handshake necessário para enviar comandos à TV. O projeto permanece incompleto.
Rede Social Privada (PoC)
Este projeto já possui um nome (não divulgado aqui) e consiste em criar uma rede social no estilo Instagram, onde cada usuário pode ter seu próprio domínio. Não tem relação com o fediverso.
É um projeto comercial, atualmente cerca de 10% concluído, e por isso não entro em muitos detalhes neste momento.
Auto TV (PoC)
O Auto TV tinha como objetivo gerar automaticamente um canal de TV baseado em vídeos, utilizando um novo módulo de IPTV. O projeto não avançou devido a problemas como tela preta durante a execução. Talvez eu retome futuramente com outra abordagem ou utilizando softwares prontos para a parte mais complexa.
Light / Light MQTT (PoC)
Esse foi um projeto experimental usando Kotlin e Go. Ele captura a entrada de áudio do computador, decompõe o som em sinais binários e classifica em frequências baixas, médias e altas, enviando esses dados via MQTT.
No celular, o aplicativo consome esses dados e pisca a lanterna de acordo com os sinais sonoros. Os principais problemas foram a conversão incorreta do áudio em binário, valores inconsistentes enviados ao MQTT e limitações da API da lanterna no Android, que não permite acionamentos muito rápidos nem efeitos de fade.
Hotspot Auth
O Hotspot Auth foi uma pesquisa para criar um produto voltado a comerciantes que desejam vender acesso Wi-Fi. A ideia envolvia usar Android TV Box para controlar a distribuição de Wi-Fi e exibir anúncios, repassando a receita ao estabelecimento.
O projeto foi abandonado porque versões recentes do Android limitam severamente APIs de controle de Wi-Fi. Hoje, para esse tipo de controle, é necessário que o dispositivo esteja configurado como administrador, o que dificulta muito a adoção. Também considerei implementar isso em roteadores GPL, mas não tinha o hardware disponível.
Secret NFT
O Secret NFT é uma ideia antiga reformulada ao longo do tempo. Inicialmente, seria uma rede social totalmente baseada em NFTs e completamente anônima, mas isso esbarrava na moderação dos marketplaces e no risco de contratos serem banidos.
A versão atual criada esse ano é uma aplicação web descentralizada, sem backend tradicional, onde perfis e postagens (texto, imagem e vídeo) são consumidos via IPFS e blockchain. Usuários podem curtir, compartilhar e possivelmente comentar. Cada interação gera uma recompensa percentual, beneficiando também o autor original.
Para evitar problemas com conteúdo ilícito, toda entrada de dados passa por uma plataforma centralizada de moderação antes de ser publicada definitivamente na blockchain. O dinheiro arrecadado é usado para manutenção da plataforma e remuneração dos perfis. Todo conteúdo é NFT, exceto comentários e curtidas. O contrato também permite ajustes de endereço em casos de perda de acesso ou golpes, com uso criterioso dessa função.
O nome do projeto deixou de refletir a proposta original, permanecendo apenas como um codinome de desenvolvimento.
WhatsApp Clone (Matrix)
Este projeto nasceu como uma alternativa ao WhatsApp, que passou por várias mudanças e integrações forçadas com outros serviços da Meta. A solução utiliza o protocolo Matrix, com o Dendrite no backend.
O frontend é feito em Flutter, enquanto a camada de comunicação Matrix foi implementada em Rust, já que não encontrei bibliotecas prontas que atendessem ao que eu precisava. Essa arquitetura torna o desenvolvimento mais lento, pois cada nova funcionalidade exige implementação em Rust, compilação e testes no Flutter.
Atualmente, o app já possui cadastro de usuários, atualização de perfil e envio de mensagens. Estou trabalhando na recuperação e recebimento de mensagens. Todas as mensagens são salvas localmente no dispositivo, com foco em uso offline e futura implementação de grupos.
Worktime
O Worktime é um plugin para VS Code criado para resolver minha dificuldade em contabilizar horas trabalhadas por projeto. A ideia era registrar automaticamente o tempo ativo em cada projeto aberto no editor.
A implementação não funcionou como esperado e, curiosamente, outros plugins com propostas semelhantes também não tiveram bons resultados no meu uso diário.
Track Links
O Track Links começou como um rastreador de QR Codes e evoluiu para um sistema de rastreamento de links em geral. Ele gera URLs de tracking, coleta IP, user agent e contabiliza acessos.
Donate
O Donate foi criado com o objetivo de arrecadar recursos para o Pixelfed Brasil e o CMS IPTV. Está cerca de 90% concluído e permitiria a criação de projetos no estilo “Apoia-se”, com doações avulsas ou assinaturas. Ele entraria no ar em donate.felipemateus.com, no lugar da antiga página de doações.
O sistema permite atualizações sobre o projeto, exibe uma lista de apoiadores, sendo que cada apoiador pode ocultar seu nome da lista. Também permite a criação de combos de projetos, possibilitando que um apoiador contribua com mais de um projeto ao mesmo tempo. Os projetos podem ser do tipo doação ou assinatura, com recebimento recorrente, e cada um possui uma meta definida.
Projetos do tipo assinatura recebem configurações específicas, e os combos só podem ser formados por projetos do mesmo tipo. Os projetos podem ser exibidos apenas para usuários autenticados ou somente para usuários com assinaturas ativas. As doações são feitas exclusivamente por cartão de crédito, e a configuração de planos é exibida apenas para projetos do tipo assinatura.
Decidi não colocá-lo no ar porque não vi demanda real. A maioria das pessoas que entra em contato pede suporte ou recursos, mas poucas demonstram interesse em contribuir financeiramente.
Sgame
O Sgame (Streaming Game) é uma PoC recente que utiliza FFmpeg para criar uma live no YouTube com um jogo interativo baseado no chat. Os usuários enviam números no chat e, a cada intervalo de tempo, o número mais enviado é escolhido. O jogo indica se o número correto é maior ou menor, funcionando de forma contínua.
O objetivo é aumentar o engajamento em lives no YouTube.
App do Felipe Mateus V3
O App do Felipe Mateus V3 é a evolução de um microblog antigo, como já mencionado no post anterior. A nova abordagem transforma o aplicativo em uma plataforma interativa. Estou planejando implementar um sistema de moedas internas, utilizadas para interação e engajamento em subaplicações. Essas moedas não são conversíveis em dinheiro e funcionam exclusivamente dentro do ecossistema do app.
Bomb
Este será um subapp do App do Felipe Mateus. Ele funcionará como um campo minado em que cada partida dura um mês inteiro, do dia 1º ao dia 30. Cada casa do jogo terá bombas com finalidades variadas, como ficar cerca de três dias sem jogar, ficar um mês inteiro sem jogar, entre outras penalidades.
Além disso, haverá recompensas, como ganhar moedas e promoções. A maior parte dos quadrados não terá função alguma.
O funcionamento do jogo será o seguinte: o jogador poderá realizar apenas uma jogada por dia, respeitando as regras de negócio. O banco de dados e a API desse jogo ficarão em um sistema separado, funcionando como um microsserviço independente do app principal.
Menor Preço
O Menor Preço é uma PoC de leilão baseada no conceito de menor lance único. Os lances só são revelados ao final do leilão, e durante o processo o usuário apenas sabe se está entre os 10 menores ou não. O objetivo é maximizar engajamento. Este é o único subapp que prevê premiação em dinheiro.
Cantinho Azul
O Cantinho Azul é um espaço de conversas ao vivo inspirado no Twitter Spaces, mas com uma dinâmica própria. Nele, o host tem controle total do palco, podendo convidar e habilitar apenas as pessoas que desejar para falar, enquanto o restante da audiência acompanha em tempo real.
A experiência funciona como um podcast ao vivo e interativo: o público escuta, participa pelo chat e interage sem interferir diretamente no áudio.
Desenvolvi uma prova de conceito (PoC) para validar a ideia e o funcionamento da plataforma. Com os testes concluídos, o próximo passo é implementar o Cantinho Azul de forma definitiva dentro do aplicativo do Felipe Mateus, integrando essa nova experiência de áudio ao ecossistema do app.
Gmerge
O Gmerge foi o último projeto iniciado no ano. Ele modifica a lógica do jogo 2048, transformando-o em um jogo de combinação infinita de cores. Possui modo swipe, similar ao 2048 tradicional, e modo gravity, mais próximo de um Tetris. Ainda estou corrigindo alguns bugs, mas o jogo já está disponível na Google Play.
Conclusão
No fim, este não foi um ano sobre produtos finalizados, mas sobre exploração, limites e aprendizado real. Muitos desses projetos não chegaram ao público, e isso não significa fracasso: cada PoC cumpriu seu papel ao revelar gargalos técnicos, barreiras regulatórias ou simplesmente caminhos que não valiam a pena ser seguidos. Criar, abandonar, refatorar e recomeçar fez parte do processo. O saldo não está apenas no que foi publicado, mas no entendimento profundo de protocolos, arquiteturas distribuídas e na capacidade de tomar decisões conscientes de onde não investir mais tempo. O próximo ciclo começa com menos ilusões e mais clareza — e esse discernimento, por si só, já é o meu maior avanço.
