Acordei. Não sei o dia nem onde estou; apenas acordei. Procuro referências de onde ou quando estou, mas a única coisa que encontro são rostos que me olham como se também estivessem perdidos. Eu não sei o que aconteceu para eu parar aqui; só sei que tento, desde o início, voltar para casa. Aqui não há pessoas normais, há apenas rostos, rostos que assustam pelo seu silêncio e mistério.
Caminho pelas cidades e vejo um mundo estranho, diferente daquele que eu conheci. Tudo é tão vulgar, tão descartável, tão complexo, tão inimigo, que eu não imaginava que um mundo como esse fosse possível. Rostos conhecidos têm comportamentos desconhecidos, e eu já nem sei se conheço esses mesmos rostos. Corpos famintos comem a si mesmos em uma luta desesperada para se manterem presos em seus próprios corpos.
Nesse mundo em que estou, amizades não existem. Ninguém faz nada se não estiver escrito, e todo mundo é vigiado por olhos biônicos que ficam nos tetos e postes, observando tudo e todos. Na menor sensação de desconfiança, você é levado para um lugar escuro e frio, onde nunca mais verá a luz do dia e ouvirá apenas vozes dizendo:
Eu sou inocente
Nesse mundo doido, rostos são tratados sem nenhuma pessoalidade. Esses rostos que me rodeiam não me veem, ou fingem não me ver.
Eu espero conseguir sair daqui o mais rápido possível e voltar para meu lar, o castelo dos sonhos, longe dos riscos e dos malefícios de viver aqui.
