Mercado de Amarras
Lembro-me até hoje da minha primeira compra no Mercado Livre: uma Cubieboard 2, avaliada em 300 e poucos reais, valores da época. Foi a primeira de muitas compras na internet.
Ao longo dos anos, comprei de tudo um pouco — de eletrônicos diversos a roupas. Minha última aquisição foi no início do mês: três caixas de barras de chocolate amargo. Digo “última” para sempre, pois o Mercado Livre encerrou minha conta contra a minha vontade, após eu tentar solicitar, por quase um mês, o fechamento da conta no Mercado Pago devido a ligações excessivas e outros problemas mais delicados.
Desta vez, a atendente foi gentil e tentou ajudar, mas informou que não há mais jeito: perdi a conta e todo o histórico de mais de dez anos de compras. Ela foi a única exceção em meio a tantos atendentes péssimos, tanto do Mercado Pago quanto de outras instituições. É curioso ver o Mercado Livre investir milhões em propagandas na TV enquanto descarta um cliente antigo como se fosse apenas um número.
Esses dez anos de compras importam apenas para mim; para eles, o dinheiro que gastei é só estatística. Infelizmente, é assim que as empresas tratam os usuários. Eu mantinha contas em apenas três plataformas: Mercado Livre, Amazon e Magalu. O Mercado Livre era o único que eu realmente utilizava com frequência e confiança; em uma década, tive apenas um problema minúsculo que mal consigo recordar.
Já na Amazon e no Magalu, a experiência foi oposta. Na Amazon, tive problemas logo na primeira compra e nunca mais voltei. No Magalu, eu estava começando a confiar, mas as duas últimas encomendas vieram erradas, o que quebrou minha confiança. Agora, aproveitando o baque do encerramento do Mercado Livre, vou fechar minhas contas nos outros marketplaces também. Depois dessa experiência, será difícil confiar em qualquer outra plataforma novamente.
É incrível como tentam vender a ideia de que são uma empresa só, quando, na verdade, operam de forma distinta. Mercado Pago e Mercado Livre possuem naturezas diferentes, mas a integração é uma bagunça: você acessa o Mercado Pago e, de repente, é jogado para o site do Mercado Livre. Essa falta de identidade visual e funcional gera transtornos. No meu caso, ao tentar cancelar o serviço financeiro por insatisfação, acabaram deletando minha conta de compras por tabela.
Essa “simbiose sinistra” não é exclusividade deles; o Magalu faz o mesmo ao criar contas no MagaluPay sem solicitação, dificultando ao máximo o encerramento para forçar o cliente a manter os dois serviços. Empresas que utilizam seu privilégio em um setor para encurralar o consumidor em outro deveriam ser seriamente questionadas. Para eles, somos apenas números, mas para nós, é a nossa vida e o nosso histórico que são desconsiderados.
Não sou religioso, mas acho impressionante como certas pessoas agem — não sei se por frieza e cálculo, ou se apenas como idiotas úteis. Elas fazem campanha para aprovar uma lei que obriga todo mundo a compartilhar dados biométricos hoje. Os bilionários donos dessas empresas buscam isso há anos para minerar dados e calcular padrões de comportamento. Essa lei deveria ser inconstitucional, mas todo mundo está na folha de pagamento, todo mundo faz parte do sistema do tecnofeudalismo que coloca pessoas como números, apenas números. Mas essa coisa de colocar seus dados biométricos em tudo parece muito com a marca da besta: você fica marcado. Quando entra em qualquer site, mesmo que novo, já tem seu histórico; me lembrei muito de um episódio de Black Mirror.
Por que estou citando a lei felca? Agora os marketplaces estão usando preço dinâmico. Você acha que isso não tem nada a ver? Você deve ser tão idiota útil quanto os que defendem essas praticas de controle. Essas empresas querem seus dados para vender, uma plataforma de e-commerce que oferece um valor diferente para cada pessoa, baseado no consumo dela nas redes sociais. Esse cenário já existe, e com os dados biométricos fica mais fácil eles consolidarem isso e tornarem a simbiose mais macabra e mais sinistra.
Enfim, o capitalismo se tornou isso: uma ditadura na qual bancos de dados tratam dados frios e manipulam pessoas como meros números.
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